"Haverá neste cosmo alguma chave para destrancar meu escafandro?
Alguma linha de metrô sem ponto final?
Alguma moeda suficientemente forte para resgatar minha liberdade?
É preciso procurar em outro lugar.
É para lá que vou."
Jean-Dominique Bauby
"Uma torrada e um café forte, por favor." Desculpa, só temos cerveja, vodca, gim... "Então, me veja uma dose disto aí que você está segurando! É forte?" Que tal um copo com água? "É forte? Há, ok, pode ser..." Aqui! Deseja mais alguma coisa? "Algo forte, como eu disse, obrigada!" Tudo bem, acho que vai gostar disso. Mais alguma coisa? "Poderíamos ficar a noite toda nessa. - Mais forte!" Porque? "Porque estou sempre desejosa de algo mais. É assim que as coisas acontecem comigo, é assim que sinto... Porque mesmo eu tinha aceitado água?" Para se acalmar, talvez. "Pode ser... Isso é forte mesmo! De qualquer forma, deixe-me ser sincera. Admito gostar especialmente do leve! Dessa tranquilidade lenta das manhãs 'frescas e frescas'. E essa sonoridade folk do vento. Mas, por outro lado, também gosto especialmente de intensidade. Embora não morra de amores por tempestades e pedras de chuva batendo na minha janela. Mas, no fundo, é sempre da mesma maneira..." O quê? "Ah! As paixões! - Quaisquer que sejam elas. - Livros; Não gosto de livros que me fazem bocejar. Nem de pessoas, tampouco. Gosto de ver Assis transpassando o seu Machado até que queime. E dos que fazem do caos que têm dentro de si, uma ou outra estrela para tingir papel ou oscilar corda, que seja! Pessoas; Não admiro o trivial. Criei afeição pelas exceções silenciosas. É, falo dessas pessoas verdadeiras, perigosamente atrevidas e ironicamente serenas. Você sabe, essas poucas almas intensas que se encontram por aí! O quê? Você é uma delas? Não sabe? Então pode se retirar, por favor. Ah, não, não, volte! Desculpe-me minha exaltação. Ei, gostei do seu olhar de noite, essa sua falta de definição estética e... Esquece. O que diabos você me serviu? Eu me sinto meio fora de mim... Como assim o que é que estou dançando? Não pode ouvir?" Aí ela se levantou e me estendeu a mão.
- E então?
- Então, nós dançamos!
- Então, nós dançamos!
- ... Só isso? Naquela espelunca mesmo?
- Naquela espelunca mesmo, ao som de uma música que ninguém mais foi capaz de escutar. Dançamos. Sorrimos. Sonhamos. E naquelas horas morosas de tosca simplicidade; é bem provável que tenha sido sua própria insanidade momentânea, que a fez se mostrar como realmente era... e seria.
- O que você quer dizer?
- Helena, a excêntrica carta de alforria que me chegava em mãos, em braços e, mais tarde; abraços.
- Hunm, só não entendi a citação de Bauby...
- O escafandro.
- O escafandro? Helena foi como um escafandro?
- Não, a chave. Helena foi a chave.
- Naquela espelunca mesmo, ao som de uma música que ninguém mais foi capaz de escutar. Dançamos. Sorrimos. Sonhamos. E naquelas horas morosas de tosca simplicidade; é bem provável que tenha sido sua própria insanidade momentânea, que a fez se mostrar como realmente era... e seria.
- O que você quer dizer?
- Helena, a excêntrica carta de alforria que me chegava em mãos, em braços e, mais tarde; abraços.
- Hunm, só não entendi a citação de Bauby...
- O escafandro.
- O escafandro? Helena foi como um escafandro?
- Não, a chave. Helena foi a chave.